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Para começar uma história…

“O menino maluquinho pegava todas! Mas teve uma coisa que ele não pode pegar. Não deu para ele segurar embora ele soubesse transá-la como um milagre. O menino maluquinho não soube segurar o tempo! E aí o tempo passou. E como todo mundo, o menino maluquinho cresceu. Cresceu e virou um cara legal! Aliás, virou o cara mais legal do mundo! Mas, um cara legal, mesmo! E foi aí que todo mundo descobriu que ele não tinha sido um menino maluquinho. Ele tinha sido era um menino feliz!”, Ziraldo.

Lendo Mário Pedrosa consegui entender de forma mais clara o que o cartunista, jornalista, pintor e escritor mineiro quis dizer quando criou o personagem “Menino Maluquinho”. Acredito que a sua intenção era – de alguma forma – a de mostrar o quanto a liberdade de expressão e as oportunidades que são oferecidas para uma criança são importantes em sua formação artística e cidadã.

“A mais autentica finalidade deste aprendizado é mesmo a de preparar a meninada para pensar certo, agir com justiça, manipular as coisas judiciosamente, julgar pelo todo e não parcialmente, apreciar com proporção e confiança, gesticular com propriedade, utilizar-se das mãos com precisão, tirar alegria não só das grandes como das coisas insignificantes e pequeninas. Esses que assim se conduzirem, quando peludos serão artistas, mesmo que nunca mais peguem num lápis ou num pincel. Verão a vida como uma sadia obra de arte a preservar e não baterão palma a ditadores histéricos, marcharão com o progresso sem, contudo, virar as costas a liberdade e , acima de tudo, apreciarão todo trabalho bem realizado, pois neste sentido sentirão, compreenderão a presença, a participação carinhosa do homem, penhor do racional, a emprestar-lhe um valor estético que transcende até o ético”, explica Pedrosa contando também que o “mérito da educação pela arte é ensinar a criança a não temer as emoções e , ao contrário, permitir que elas aflorem e desabrochem”.

Diante disto tudo começo a me recordar da minha infância e de quanto  o papel dos agentes educadores foi importante na minha formação. E é preciso dizer que muitas vezes quem faz a diferença nesta etapa da nossa vida acaba não sendo o professor de educação artística – como aconteceu na minha história.

Eu nasci no começo dos anos 80, mais precisamente em 1982, o ano em que também nasceria o Circo Voador, e que João Figueiredo era o “presidente” do Brasil pela Aliança Renovadora Nacional (Arena). Ano também em que Oscar Niemeyer concebeu o Sambódromo, que o ET foi lançado, que o achocolatado Toddynho chegou em nosso país e que a melhor seleção de todos os tempos voltou pra casa sem a taça nas mãos.

Durante esta década eu passei pela pré-escola e entrei no chamado “primário” em um colégio particular.

José Sarney era então o presidente “que não tinha sido o eleito” e eu me lembro de vários comentários frustrados a respeito de inúmeros assuntos por parte das pessoas mais velhas que viviam perto de mim.

E foi exatamente um comentário que eu escutei quando deveria ter uns dez anos que me fez entender o significado dessa tal palavra “frustração”. Creio que estava na 5a ou 6a série quando ocorreu um episódio com a professora de educação artística. Em um belo dia, durante uma das intermináveis reuniões de “pais e mestres” (o nome me dava até calafrios, parecia algo do estilo “convenção das bruxas”) minha mãe levava um caderno de desenhos meus nas mãos. Era um daqueles cadernos com espiral, todo encapado, “uniformizado” e entiquetado. Coisa mais “igual”, “dentro dos padrões” não devia existir. Era a ditadura dos cadernos encapados.

Lembro-me que todos os anos os professores ditavam a cor do plástico a ser comprado para encapar os nossos bloquinhos. Desde a agenda, até a última sulfite disponível nas mochilas. Eles recomendavam até o tipo de etiqueta e os dados que deveriam ser anotados nelas.

Pois bem, minha mãe levava o caderno nas mãos para então realizar uma pergunta básica pra professora de nome curto: “Por que a senhora deu nota zero no caderno da minha filha?”.  A professora então, dona de um gosto muito particular, respondeu rapidamente: “Olha as margens mamãe! A sua filha não sabe fazer margens em volta dos desenhos… Ela parece não gostar ou não entender a importância da educação artística. Veja bem minha senhora, se sua filha não aprender a educação artística direito agora, imagina só no futuro. Ela quando crescer não vai saber nem escolher e combinar as roupas que vai vestir”, concluiu.

Sinceramente eu não me lembro o que a minha mãe respondeu para aquela senhora. Acho que apaguei da mente na verdade. O fato é: de onde tiraram aquela mulher pra dar aula para um punhado de crianças em idade de total formação artística e cidadã?

Como diria Anita Malfatti “é preciso entender que toda criança pode ser um artista” e não podá-la porque ela não se encaixa nos padrões que o “educador” estabelece.

Infelizmente eu recebi os princípios da arte educação em uma época um pouco estranha para mim e de uma maneira que ao me ver é totalmente equivocada, mas felizmente eu tive a sorte de ter em minha vida, ao meu redor, bem próximos, agentes culturais que mudaram a forma de ver o mundo: meu pai e tia Ana Néri.

Em 1993 minha tia me levou para assistir à primeira grande peça da minha vida, com o ator Paulo Autran , “O Céu Tem que Esperar”, de Paul Osborn, na Sala São Luís.

No começo das minhas férias de julho de 1995, aos 13 anos, a mesma tia foi comigo ver a exposição “Rodin – Esculturas”, durante o aniversário de 90 anos da Pinacoteca. Fiquei aproximadamente seis horas na fila para poder admirar as estátuas da Porta do Inferno e as pequenas bailarinas. Lembro ter ficado com a vontade de levar as pequenas dançarinas para casa. Pareciam flutuar. Entendi então o porquê do tamanho da fila.

Naquele mesmo ano tia Neri – que ainda é agente de viagens – me levou então para uma excursão pelas cidades histórica de Minas Gerais.

Um pouco mais tarde, em 1997, meus pais me levaram junto com meu irmão, 4 anos mais novo, ver os desenhos da Casa Buonarroti de Florença, pertecentes a Michelangelo, no Masp.

Meu pai, que é artista e hoje trabalha com marchetaria maciça, sempre deixou eu e meus três irmãos bem a vontade para criar e entender que aquilo não era um “algo mais na vida” e sim fazia parte de nós. Na minha vida a arte graças aos meus queridos agentes culturais esteve presente no dia-a-dia e dentro de nós.

Agradeço ao meu pai por ter me ajudado a realizar um belíssimo desenho para então tirar nota e não ser reprovada em educação artística aos dez anos por não ter feito margens nas minhas criações. Expliquei pra ele que ia ficar feio e “preso” e ele entendeu. Não brigou. Agradeço também a minha tia por ter insistido em me levar ver Rodin,  apresentar-me para uma das maiores exposições de todos os tempos e despertar em mim esse amor que tenho por tudo o que é belo. Eles foram grandes mediadores.

Esses mediadores aproximaram a arte da minha vida e me ajudaram a refletir sobre as minhas relações com a arte. Abriram portas, disponibilizaram-me informação e acima de tudo me deram liberdade para raciocinar, criar e sentir o que eu queria, sem impor ideia pré-concebidas.

Penso que sem eles eu provavelmente não iria amar arte como eu amo hoje, como também não seria quem sou.

Eu tive a sorte de ter em minha vida um artista e outros agentes educadores que me guiaram neste crescimento, mas e as outras crianças que não tiveram a mesma sorte que eu tive? Daí a importância da conscientização dos professores e principalmente do Estado quanto à seriedade de uma arte educação realizada com muita atenção nas escolas.

Como diria Ana Mae, “a arte é tão importante na escola, para equilibrar o indivíduo e para torná-lo capaz de conhecer através de todas as linguagens disponíveis no mundo” e é exatamente assim que eu sinto que o Menino Maluquinho se tornou quando cresceu: um conhecedor do mundo!

Larissa Gallep Larissa Gallep é jornalista, especialista nos Fundamentos da Cultura e das Artes e mestranda em Artes Visuais pela Unesp.

É uma admiradora do novo, do contemporâneo, do conceitual e ao mesmo tempo uma apaixonada pelo belo, pelo antigo.
Tem ideia fixa com o inédito (apesar de desconfiar seriamente que ele não existe mais). Adora a possibilidade de trabalhar com palavras e imagens, mas tem a certeza que sem música não sobreviveria nem sequer um dia.
Adora andar por aí, pelo mundo, conhecendo gente, lugares, coisas, histórias. “Observando! Tudo é referencia na arte da criação, na arte de viver. Aprendemos um pouquinho com cada segundo”.
Apesar do pesares, é uma romântica convicta, e acredita que ter fé, coragem e esperança é vital.

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